Arquivo de Out/2007

BACALHOADA

14/Out/2007

Jamais havia comido bacalhoada em toda a minha vida, minha mulher também não, e nunca pensei que eu viesse a fazê-lo. Na Semana Santa deste ano, eu estava na roça e tinha tomado umas cervejas, quando minha cunhada nos ofereceu a iguaria. Para meu espanto, minha mulher provou e aprovou o peixe. Em seguida, foi minha vez de criar coragem e desfazer essa rejeição de mais de quarenta anos. Perguntaram se eu havia gostado, respondi com sarcasmo que não estava preparado psicologicamente para responder. Voltei a degustar o peixe outras duas vezes em restaurante. Passados seis meses, nova bacalhoada na roça. Agora dei meu “parecer”:  peixe fino, sabor único, de uma consistência especial.

Desescrevendo ao poeta

1/Out/2007

Manoel de Barros, mestre das coisas, faz as vezes de aranha, pois “aranha com olho de estame no lodo se despedra”. 

Manoel: um duende que “infantiliza formigas”, dá vida às pedras, ama a solidão dos lagartos, sobrevoa as noites alagadas do Pantanal. Tudo para chegar ao ápice, que é o “criançamento das palavras”. 

Só um duende poderia dizer que “os sabiás divinam”, que “as coisas rasteiras me celestam”, ou que “de noite o silêncio estica os lírios”. Eis que o velho Barros “entra para inseto”, e se diz “archaico”. Apenas uma graça; Barros é moderno. 

Os recantos mágicos do pantanal mato-grossense produziram essa criatura cheia de dons, portadora de um olhar-criança. Guardador de águas, encantador de pedras, divinizador de insetos, ele faz a desleitura da natureza. 

Para desfiar o embate homem-natureza, basta ler Barros: chega-se ao caráter das coisas – por isso lhe desescrevo estas linhas. 

Vai, Manoel, “renovar o homem usando borboletas”!