Desescrevendo ao poeta

1/Oct/2007

Manoel de Barros, mestre das coisas, faz as vezes de aranha, pois “aranha com olho de estame no lodo se despedra”. 

Manoel: um duende que “infantiliza formigas”, dá vida às pedras, ama a solidão dos lagartos, sobrevoa as noites alagadas do Pantanal. Tudo para chegar ao ápice, que é o “criançamento das palavras”. 

Só um duende poderia dizer que “os sabiás divinam”, que “as coisas rasteiras me celestam”, ou que “de noite o silêncio estica os lírios”. Eis que o velho Barros “entra para inseto”, e se diz “archaico”. Apenas uma graça; Barros é moderno. 

Os recantos mágicos do pantanal mato-grossense produziram essa criatura cheia de dons, portadora de um olhar-criança. Guardador de águas, encantador de pedras, divinizador de insetos, ele faz a desleitura da natureza. 

Para desfiar o embate homem-natureza, basta ler Barros: chega-se ao caráter das coisas – por isso lhe desescrevo estas linhas. 

Vai, Manoel, “renovar o homem usando borboletas”! 

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